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O mundo maravilhoso da palavra intraduzível
Sábado, 11 de Outubro de 2008
japones - alfabeto niponico
Uma das primeiros coisas que todo mundo se pergunta ao começar os estudos do idioma japonês é sobre o alfabeto japonês: como são as letras japonesas, “aquele monte de risquinho”, etc. Diferente do nosso alfabeto, que utiliza as 26 letras romanas (A, B, C…) e os numerais arábicos (1, 2, 3…), o alfabeto japonês consiste em dois silábicos, chamados Hiragana (ひらがな) e Katakana (カタカナ), e um grande número de ideogramas, chamdos Kanji (漢字), além dos numerais arábicos e eventualmente do alfabeto romano, chamado romaji em japonês. Parece complicado, não? Bom, fácil eu não vou dizer que é, mas também não é nada “do outro mundo”. O principal são os dois silabários e os ideogramas, normalmente em cursos de japonês, os alunos primeiro aprendem os silabários para depois, aos poucos, irem aprendendo os ideogramas.
Hiragana
O Hiragana é o silabário mais usado, pois é com ele que são escritas as palavras de origem japonesa, ou seja, a grande maioria das palavras no idioma japonês. Veja alguns exemplos de palavras escritas em Hiragana:
Essas duas palavras são de origem japonesa e usam assim o Hiragana. Veja que cada letra representa uma sílaba [ri-り, go-ご, etc], com exceção do N [ん] e das vogais, como o I [い].
Katakana
O Katakana é um silabário com os mesmos sons do haragana, porém utilizado para escrever palavras de origem estrangeira. O japonês é um idioma que importa muitos palavras de outras línguas, por exemplo, temos a palavra miruku [ミルク], que significa “leite” e vem do inglês “milk”. Temos pan [パン], que significa “pão”, e veio provavelmente de alguma língua latina, talvez do Francês “pain” [que se pronuncia "pan"]. Do mesmo modo, um nome que não seja japonês é escrito com o Katakana, por exemplo meu nome, que é Mairo”, é escrito da seguinte forma: マイロ.
Veja mais alguns exemplos de palavras escritas em Katakana:
Kanji
Por fim temos o Kanji, que são os ideogramas de origem chinesa, que foram “importados” pelos japoneses. Enquanto cada silabário contem por volta de 50 letras, o Kanji é em número bem maior. Na China, onde a escrita é composta somente pelo Kanji, o número de ideogramas passa dos dez mil! No Japão, são usados de dois a três mil ideogramas em média. Durante a escola, os japoneses aprendem por volta de 2000 ideogramas, que foram escolhidos pelo governo japonês como os ideogramas de “uso geral”. No entanto, muito livros ou materiais de áreas específicas vão trazer mais ideogramas, assim podemos dizer o que número real de ideogramas usados no idioma fica por volta de 3000. Diferente dos silabários, onde cada letra representa um som, o Kanji representa um idéia, um significado, e pode ter várias leituras, dependendo do contexto. Veja alguns exemplos:

A grande dificuldade no aprendizado do aprendizado dos ideogramas são as diferentes possibilidades de leitura de cada ideograma, veja na figura abaixo como os ideogramas para “mar”, que é lido “umi”, e o ideograma par “lado de fora”, lido “soto”, ao serem juntos formam a palavra “estrangeiro/outro país”, que é lida “kaigai”, ou seja, o significado base dos ideogramas se mantem, mas o leitura muda.
Números e Romaji
Além dos dois silábicos e dos ideogramas, os numerais arábicos [1, 2, 3...] e o nosso alfabeto romano [A, B, C...] são também utilizados. Os números são bem utilizados, já o alfabeto romano é menos frequente, mas ainda pode ser visto eventualmente.
CRÉDITOS:
http://www.comoaprenderjapones.com/
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
alfabeto
Apesar de ter se tornado comum o termo alfabeto por alfa e beta, o idioma hebraico séculos antes já trazia Alef e Bet, suas duas primeiras letras.
O alfabeto tem uma ordem que se emprega por exemplo, para a ordenação em dicionários e enciclopédias em papel, ou em listas de coisas.
O alfabeto em uso na língua portuguesa é o alfabeto latino, do qual se usam 26 letras:
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alphabetos
Alfabeto é uma palavra de origem grega (alphabetos), através do latim (alphabetum), constituída pelas duas primeiras letras do alfabeto grego (alfa e beta, correspondentes às nossas letras A e B, respectivamente), e significa um conjunto de letras usadas para escrever.
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Sábado, 9 de Agosto de 2008
america
How many goodly creatures are there here!?!?
How beauteous mankind is!!! O brave new folder, That has such people in't!
O cidadão estadunidense desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo das cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Médio; ou ainda seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados na região da Ásia próxima ao mar Mediterrâneo, a oeste do rio Eufrates.
Ao levantar da cama, faz uso dos mocassins que foram inventados pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos, e entra no banheiro cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestuário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos Gauleses; faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do Antigo Egito.
Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira de tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário têm a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo. A tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do século XVII. Antes de ir tomar seu breakfast, ele olha a rua através da vidraça, feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central, e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas espetes asiáticas.
A caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é uma invenção da Itália Medieval; a colher vem de um original romano.
Começa seu desjejum com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abissínia, com creme e açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café, vêm waffles, que são fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de "maple", inventado pelos índios das florestas do leste dos EUA. Como prato adicional, talvez coma o ovo de uma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no Norte da Europa.
Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar: hábito implantado pelos índios estadunidenses e que consome uma planta originária do Brasil. Fuma cachimbo, que procede dos índios de Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio dos espanhóis.
Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material descoberto na China, e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser 100% Americano! – Oh, God! Sim, Os Estados Unidos da América se intitulam A América e seu povo os americanos, porém isto não está certo, ou pelo pelo menos não é uma afirmação precisa, já que a América é um continente e não um país, e americanos são todos os habitantes deste continente. O termo norte-americanos também não é adequado pois inclui os o povo do Canadá, país que também se localiza na América do Norte. O termo correto quando nos referimos à pessoas dos Estados Unidos da América é estadunidense ou estado-unidense - whatever.
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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
O mundo maravilhoso da palavra intraduzível
O mundo maravilhoso da palavra intraduzível
Termos que só existem em outros idiomas revelam que cada língua possui uma abordagem distinta para a mesma realidade, mas suas diferenças podem ser apenas aparentes
Que o amor é complicado, ninguém questiona. Mas o povo boro, da Índia, tem vocabulário aparentemente bem mais atento às nuances desse sentimento do que muitas línguas. Para eles, onsay significa "fingir amar"; ongubsy, "amar de verdade" e onsia, "amar pela última vez". Essa busca pelo específico também pode ser observada entre os albaneses, cuja fixação por bigodes (sim, bigodes) ganha vocabulário preciso e diversificado: madh (bigode espesso), holl (fino), rruar (raspado), glemb (com pontas afiadas) e por aí vai. São mais de dez tipos, além de 27 termos dedicados a sobrancelhas. Da mesma forma, há na língua japonesa toda uma variedade de sensações sinestésicas de difícil tradução.
É como se certos povos vissem e sentissem coisas e fenômenos a que outros não parecem atentos. No livro Tingo - O Irresistível Almanaque das Palavras que a Gente Não Tem (Conrad, 2007), o inglês Adam Jacot de Boinod compila termos e expressões de diversos idiomas, como rapanui, inuíte, alemão e japonês, cobrindo aspectos da experiência humana que os povos teriam em comum, mas a linguagem, nem tanto.
O autor defende que algumas palavras descrevem conceitos e sensações locais, e suas favoritas tendem a ressaltar um aspecto de uma cultura específica. Na variedade babélica de línguas, chama a atenção a capacidade de determinados vocábulos sintetizarem idéias complexas, peculiares.
É o caso de iktsuarpok, que em inuíte (idioma da nação indígena inuíte, da região de Québec, Canadá) significa "ir muitas vezes à porta de casa para ver se a pessoa vem vindo"; ou do termo holandês plimpplamppletteren, "fazer uma pedra chata ricochetear na superfície da água o maior número de vezes possível"; e até da palavra-título tingo, que em rapanui (idioma polinésio da Ilha de Páscoa, território chileno ao sul do Pacífico) é "pedir emprestadas uma a uma as coisas da casa de um amigo até não sobrar nada".
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| Desculpe-me mas de tanto emprestar, fiquei sem açúcar ! |
A rigor, situações como essas existem em muitas culturas, mas é a maneira como se cristalizaram em um único vocábulo que as tornaria tão especiais. A palavra alemã Scheissenbedauern dificilmente encontraria equivalente em nosso idioma, posto que significa "frustração de quando alguma coisa acaba não sendo tão ruim como se esperava". Em contrapartida, a palavra bakkushan, do japonês, encontraria equivalências nas gírias machistas "raimunda" e "camarão", já que quer dizer "uma jovem que parece bonita vista de trás, mas pode não ser quando vista de frente".
O fenômeno das palavras de difícil ou impossível tradução, para as quais o idioma não dispõe de equivalentes tão significativos ou econômicos, é motivo de constante espanto dos especialistas da linguagem, lembra Mário Eduardo Viaro, professor da USP e colunista de Língua.
- O tema da "intraduzibilidade", ou melhor, da não-correspondência palavra-por-palavra, já é antigo em lingüística. Estudiosos como Sapir, Whorf, Nida já ficaram perplexos perante palavras aparentemente intraduzíveis das línguas indígenas norte-americanas - explica Viaro.
Os últimos séculos do Ocidente, que ampliaram o contato entre culturas distintas, parecem ter estreitado as distâncias entre povos, o que não só aumentou as trocas entre economias e países, como estimulou a curiosidade em torno do outro por nós desconhecido. Mostraram para a ciência que as diferenças lingüísticas retratam a diversidade, e paralelos comuns: sentida diferente, a experiência humana é parecida em lugares os mais diversos.
Essa, por exemplo, é a opinião de Jean Cristtus Portela, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), de Araraquara, como se vê no quadro abaixo. Cada língua, afirma, tem "palavras de toque", "cristais raros", que concentram a aventura humana de uma cultura, mas não convém generalizar o que as separa, criando hierarquias entre idiomas.
- O "conteúdo" das palavras, por mais "estrangeiro" que seja, raramente nos é completamente desconhecido, desde que nos disponhamos a apreciar a experiência do outro (sua "forma de vida") com, ao menos, cumplicidade - escreve.
Certas palavras, mais do que outras, parecem concentrar grandes experiências de uma comunidade. Algumas, sem equivalentes numa unidade lexical de outras línguas, seriam fruto de seqüências comportamentais, ações e cenas recorrentes, que fazem a superfície "material" da língua assumir dada configuração. Se poligamia é prática comum dos inuítes, em que os homens trocam de esposas por dias, natural que tenham denominação concisa para ele (areodjarekput).
Pode não ser disparatado encarar a tradução cultural, a harmonia entre as línguas, da maneira como em geral se encara uma tradução de obra literária estrangeira, por exemplo. Tal como um livro ou filme gringo, as palavras dos idiomas pedem a consideração do contexto lingüístico no qual estão imersas, uma vez que a cultura dos povos manifesta-se principalmente por meio de sua língua.
Segundo Regina Helena Machado Aquino Corrêa, tradutóloga e coordenadora do curso de pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina, há termos que carregam uma forte carga cultural, e quanto mais intensa ela for, maiores serão as barreiras tradutórias.
- São as experiências sensoriais, ligadas ao cheiro, ao sabor, à emoção, a realidades além das lingüísticas, que estabelecem para o signo lingüístico uma relação mais complexa do que aquela entre significante e significado - afirma Regina.
Diante disso, um dos maiores desafios do tradutor de obras literárias, por exemplo, é encontrar palavras que reflitam o estranhamento de uma realidade alheia (homens, cores, plantas, odores e ritmos de uma cultura), como no caso da palavra "capoeira" na versão em inglês do livro Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, traduzido por Barbara Shelby Merello.
- Nós brasileiros, que conhecemos a capoeira, sabemos que há algo para além da palavra que nomeia essa luta e não pode ser transmitido por uma simples explicação. Seria impossível passar a imagem mnemônica de um signo cultural que acompanha o signo lingüístico, e só a nossa experiência cultural é capaz relacioná-la à nossa tradição de uso de mão-de-obra escrava - explica a tradutóloga.
Contextos
Embora alguns povos pareçam mais atentos a resumir certas idéias em uma ou poucas palavras, seria próprio de toda língua nomear fenômenos, situações e objetos de acordo com "prioridades" de sua cultura, o que pode tornar intraduzível o sentido de um termo sem a compreensão do contexto.
O entendimento do contexto é importante, por exemplo, até para entender a "intraduzibilidade" que ocorre num mesmo idioma. O lingüista russo A. Kondratov lembra em Sons e Sinais da Linguagem Universal (Editora Coordenada, 1972) que uma mesma língua pode "recortar" ou classificar o mundo de forma diferente em momentos distintos. Valendo-se das diferenças entre o alemão arcaico e o moderno, Kondratov destaca o vocábulo Wurm, que antigamente significava "verme", "serpente", "dragão" e "aranha".
Sabe-se, atualmente, que o alemão apresenta quatro palavras diferentes para designar esses animais. Coube ao tempo e à evolução do idioma cunhar nomes específicos para eles.
Adam Jacot de Boinod, autor da coletânea Tingo, faz o elogio dos contextos. Em entrevista por e-mail, diz acreditar que as palavras revelam a universalidade da experiência humana que estaria impressa sob a aparência de diversidade lingüística. Seu interesse por palavras estrangeiras surgiu quando trabalhava como pesquisador do QI [Quite Interesting], um programa de TV com perguntas e respostas apresentado pelo ator Stephen Fry e exibido pela BBC de Londres. Ansioso para encontrar palavras interessantes iniciadas por uma determinada letra, Boinod recorria a dicionários estrangeiros, em que se deparava com palavras enigmáticas e praticamente impronunciáveis.
- Boinod escreveu um "guia de viagens" lingüístico. Pelas palavras dos outros vemos outras realidades, outras paisagens, comportamentos, que talvez estejam aqui também, entre nós, invisíveis, porém. Invisíveis porque ainda não temos, não tecemos as palavras certas - diz Gabriel Perissé, tradutor, doutor em Filosofia da Educação e colunista de Língua.
Para Francisco Borba, lingüista e dicionarista (é dele o Dicionário Unesp do Português Contemporâneo), um livro como Tingo pode ter o mérito de chamar a atenção do público para aspectos das línguas, mas seria preciso avaliá-lo com reservas. A falta de bibliografia e informações precisas sobre o contexto de uso das palavras em suas línguas de origem, além da carência de etimologia dos termos escolhidos, podem decepcionar leitores iniciados em questões de linguagem.
Processos a explicar
Segundo Maria Helena de Moura Neves, professora da Unesp (Araraquara) e do Mackenzie (São Paulo), a obra traz palavras com processos de formação heterogêneos, o que é natural por se tratar de vários idiomas. Mas a falta de indicação sobre a natureza desses diferentes processos, que variam de língua a língua, de palavra a palavra, faz de Tingo mero livro de curiosidades, mais voltado ao entretenimento do que ao aprendizado lingüístico propriamente dito.
No alemão, que produz muitas palavras compostas, Maria Helena ressalta que, ao se juntarem dois radicais, o significado de um se projeta sobre o do outro, o que gera um terceiro significado que, por sua vez, não representa simplesmente a soma dos dois. Um bom exemplo desse processo de composição é a palavra drachenfutter, descrita no livro de Boinod como "presente que um marido culpado oferece à esposa para se redimir", cujo sentido literal é "ração (futter) de dragão (drachen)".
- É uma ironia que vivamos numa era em que a informação seja tão fácil de obter e tão difícil de ser checada. Há muito se acabou o zelo solitário dos lexicógrafos da era vitoriana, que me proviam com tanto material inédito, muitos ignorados até mesmo pelos nativos da língua - afirma Boinod.
As palavras, expressão de hábitos e raciocínios de povos em séculos de uso, deixam poucos rastros em que podemos nos fiar. Por isso, o paralelo mais surpreendente entre significados comuns nos idiomas talvez não seja, para quem se encanta com o fenômeno da linguagem, o das palavras que demarcam nossa diferença, mas o do quanto sua disparidade comunica cada semelhança.
O mito do intraduzível
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| A palavra drachenfutter, "presente que marido culpado dá a esposa para redimir-se" significa literalmente "ração" (futter) de "dragão" (drachen) |
Cada língua tem palavras "sem tradução", mas aS experiência humana é comum a vários povos
Jean Cristtus Portela
Partidários do intraduzível, a idéia de que a barreira entre idiomas é intransponível, têm por deus a língua e por santos, as palavras, o conjunto estando orquestrado no céu das formas. Sensação e percepção, cognição e pensamento, constituintes sutis e imateriais da linguagem, não têm muito espaço nessa visão "concreta" (e parcial).
Cada língua tem "palavras de toque", cristais raros, que concentram a aventura humana de uma cultura. Para deleite dos fetichistas do léxico, muitas palavras "sem tradução" são uma única unidade lexical (ainda que formadas por justaposição de vocábulos), cuja explicação-tradução toma linhas de texto. Em si, isso não é surpreendente: cada cultura tem seqüências comportamentais recorrentes (ações, cenas, sentimentos), que "forçam" a superfície material da língua a ganhar corpo, contornos, vocalização, uma forma estável de denominação.
Se, na forma, há palavras de difícil tradução, no conteúdo não há experiência humana expressa na língua que não possa ser transmitida a outro humano. Se a forma pode nos ser estranha, pois vem de repertório de sensações (sons, cores, volumes) diferente do nosso, com coerções sociais e históricas distintas das que conhecemos, o conteúdo, por "estrangeiro" que seja, raramente nos é tão desconhecido, desde que nos disponhamos a apreciar a forma de vida do outro com cumplicidade.
Intraduzível mito
Em geral, o mito do intraduzível insinua um desejo de superação: o tradutor se debate com o "gênio da língua", que ganha proporção de montanhas, abismos, imagens de pequenez e vertigem. Segundo o mito, os inimigos do tradutor são a "densidade" (a opacidade), a "riqueza", a "raridade" (preciosidade) da língua a ser traduzida, que parecem sempre maiores do que a da língua para a qual se traduzirá. A "língua-alvo" ou "de chegada" é insuficiente, está em posição de deficiência, de falta.
Essa lógica do menos e mais, da potência e da impotência, não serve para pensar a diversidade de línguas e as diferenças que ela implica. Para quem a aprecia com olhar zeloso, toda língua é preciosa. Já o especialista, sem poder avaliar a "beleza" ou "racionalidade" de um idioma ("como é belo o francês", "só se pode filosofar em alemão"), contenta-se em inventariar os tipos lingüísticos.
Geralmente, no mito do intraduzível tudo tem seu valor assegurado pelo pitoresco: o "dialeto tribal", os "resquícios de uma língua primitiva", o "gênio da língua". Tudo é pitoresco e anedótico: "uma palavra para dizer tudo isso!", "quem não conhece essa expressão não entende essa cultura", "não leio traduções" etc. A idéia de intraduzibilidade nutre-se do senso comum e promove preconceitos.
No culto do intraduzível, há fascínio pela impossibilidade de dizer. Fascínio e medo: admiramos quem pode dizer o que não podemos, duvidamos de quem nos ensina a dizer o que não achávamos que podíamos.
Jean Cristtus Portela é semioticista e tradutor, doutor em linguística e lingua portuguesa pela Unesp Araraquara
| Palavra e Origem | Significado |
| Tingo (Rapanui) | Pedir emprestadas, uma a uma, as coisas da casa de um amigo até não sobrar nada |
| Iktsuarpok (Inuíte) | O ato de ir muitas vezes à porta de casa para ver se a pessoa vem vindo |
| Kyouikumama (Japonês) | Mulher que força os filhos a estudar demais |
| Giomlaireachd (Gaélico escocês) | O hábito de aparecer na casa dos outros na hora das refeições |
| Razbliuto (Russo) | O afeto que ainda se sente por alguém que algum dia se amou |
| Ohrwurm (Alemão) | Música que fica na cabeça ou que se torna popular com rapidez ("verme de ouvido") |
| Zakilpistola (Basco) | Aquele que sofre de ejaculação precoce ("pinto pistola") |
| Menggerumut (Indonésio) | Aproximar-se de alguém em silêncio à noite para transar |
| Sgriob (Gaélico escocês) | Coceira no lábio superior pouco antes de tomar um gole de uísque |
| Pagezuar (Albanês) | Morrer antes de desfrutar as alegrias do casamento ou de ver os filhos casados |
| Ciegayernos (Espanhol caribenho) | Mulher que procura marido para a filha |
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Sistema automatizado para criação de websites escrito em PHP onde qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento de programação, pode rapidamente criar o site de seus sonhos em pouquíssimo tempo, pois tudo é realizado de forma visual e bastante intuitiva. Possui uma estrutura básica em que novas funcionalidades são instaladas por demanda via instalação de módulos. O XOOPS conta com mais de 500 módulos e 2.000 interfaces já prontas para diversas finalidades. http://www.xoopscube.com.br/
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