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Inteligencia artificial - logica difusa

O mundo maravilhoso da palavra intraduzível

Sábado, 27 de Setembro de 2008

 

Inteligencia artificial - logica difusa

Sempre pensei que fosse assim, mas acabei de saber que é novidade: estão ensinando os robôs a pensar usando a lógica difusa. Cadê o meu espanto?

A lógica diz que Sócrates era mortal (já que Sócrates era humano e todos os humanos são mortais), mas não diz se era alto ou baixo, nem se cobrava um salário digno ou se era abastado. Ser "alto" é um conceito difuso, e ensiná-lo a uma máquina requer um novo tipo de "lógica difusa" [ou lógica incerta]. O problema é importante porque a maioria das situações da vida real são difusas. Está calor ou 'está bom'? Quando pisar ou soltar o freio? O paciente tem gastrite? Há crise ou desaceleração?"A lógica clássica aristotélica mostrou-se eficaz em ciências exatas como a matemática ou a física", diz o cientista da computação Jorge Elorza, da Universidade de Navarra. "Mas revela-se insuficiente quando as afirmações contêm imprecisão, incerteza ou ambigüidade, que é como funciona o raciocínio humano; a lógica difusa ajuda os programas informáticos a interpretarem juízos desse tipo".Elorza cita como exemplo os critérios para diagnosticar a gastrite aguda: "dores difusas no estômago, náuseas com ou sem vômito e incômodos diversos". Para que os computadores ajudem no diagnóstico médico, devem se programados com a lógica difusa, mais semelhante à que os médicos aplicam nesses casos. "Trata-se de um computador com palavras em vez de números", diz.Na lógica difusa, as coisas não são verdade ou mentira. Uma coisa pode ser 15% verdadeira (tecnicamente, seu "grau de verdade" é de 0,15). E as variáveis (ou categorias) não são números, mas nomes sem fronteiras precisas (faz calor, frio ou "estar normal"), e os operadores que os modificam são "bastante" ou "não muito".Como qualquer um que trabalhe em escritório ou faça compras em grandes lojas, o fato de estar calor, frio ou normal são três coisas que podem ser verdade ao mesmo tempo. E, além disso, depende de quem responde.Um termostato difuso examina os graus de verdade das três afirmações para decidir se coloca mais ou menos ar frio na sala. Isso, com certeza, elimina a clássica distinção entre otimistas e pessimistas, porque o copo já não está mais meio cheio ou meio vazio, mas está cheio com um grau de verdade de 0,5. E vazio na mesma medida. Se o copo estiver com três quartos de sua capacidade, é 0,75 verdade que está cheio, mas também é 0,25 verdade que está vazio.As aplicações da lógica difusa na engenharia crescem com ímpeto. De fato, elas já fazem parte da vida cotidiana. "Minha lavadora é de uma das marcas que já usa a lógica difusa", diz Elorza. As duas marcas são AEG e Miele, e usam esses métodos de computação para controlar o programa de lavagem quando a roupa "não está muito suja": um conceito difuso.A técnica também é usada nos sistemas de freio dos automóveis, no foco automático das câmeras fotográficas, no controle dos elevadores em prédios públicos, filtros de spam [mensagens indesejadas] e videogames. Os fabricantes não tornaram esses avanços públicos por uma razão evidente. "Freios controlados por uma lógica incerta" não é o tipo de mensagem capaz de vender mais carros.Mas a má fama da lógica incerta ou difusa deve-se à má escolha do nome. O que é incerto não é a lógica - que tem uma definição matemática precisa - mas o mundo ao qual ela se aplica, incluindo nossa percepção de suas fronteiras e categorias."As máquinas codificam o que nós transmitimos a elas e calculam muito depressa, mas carecem de um menor grau de generalização", explica Elorza. "Os últimos avanços englobam métodos que, juntamente com a lógica difusa, giram em torno de redes neuronais e algoritmos genéticos, uma enriquecedora combinação de técnicas denominada de "soft computing". O conceito de soft computing, que pode ser traduzido como "computação leve" (ainda que ninguém o faça), foi introduzido na década passada pelo matemático azerbaijano-iraniano Lofti Zadeh, da Universidade de Berkeley. O próprio Zadeh havia inventado a lógica incerta nos anos 60 e 70. Os avanços posteriores nas redes neurais (programas que aprende pela experiência) e algoritmos genéticos (programa que evoluem com o tempo) pareceram a Zadeh um complemento idôneo para sua lógica incerta.A combinação dessas ferramentas (denominada soft computing) permite que as máquinas aprendam a manejar conceitos difusos, muito ao estilo humano. O Congresso Espanhol sobre Tecnologias e Lógica Incerta, que aconteceu esta semana nos vales de mineração asturianos (Langreo-Mieres), já está em sua 14ª edição.Um exemplo em que o soft computing conseguiu avanços notáveis é o reconhecimento da escrita manual. Trata-se de um grande problema para a computação convencional, porque é difícil imaginar uma descrição matemática precisa da letra "a" que abarque todos os "as" que as pessoas escrevem (e reconhecem). Mas o soft computing é capaz de manejar categorias como "mais ou menos um a". Lembrem-se que, na lógica difusa, uma coisa pode ser um "a" com um grau de verdade de 0,7, por exemplo. O sistema de reconhecimento da escrita apresenta muitas falhas com cada novo usuário, mas logo se adapta às peculiaridades de seus traços. Para isso servem as redes neurais.As redes neurais são programas inspirados na biologia. São compostas de neurônios que recebem várias informações e as combinam para emitir uma só resposta, como os neurônios de verdade. E, assim como eles, modificam a força de suas conexões em função da experiência. Sua aprendizagem costuma ser "guiada", ou seja, baseia-se na comparação do resultado proposto pela máquina com a solução correta da vida real.Esses programas não pretendem ser um modelo de funcionamento real do cérebro - tanto os neurônios individuais como suas conexões são uma caricatura da versão biológica -, mas são capazes de aprender com a experiência.75% dos carros fabricados são equipados com o sistema de freios ABS. A Intel Corporation, gigante da fabricação de chips eletrônicos, é também um dos fornecedores de controles eletrônicos para o sistema ABS, e utiliza a lógica difusa. A função do ABS é manipular os freios para evitar que o carro patine. Um vasto encadeamento de silogismos aristotélicos não ajuda muito nessas situações, como sabe qualquer motorista. Os sistemas de visão artificial dependem bastante da lógica difusa. Para nós, parece fácil decompor uma cena visual em objetos distintos, mas delimitar suas fronteiras é uma questão complicada que nosso cérebro tem de resolver a cada segundo.A fronteira real chega aos nossos olhos borrada pela imprecisão do foco, das sombras e contrastes. Várias interpretações podem ser verdade ao mesmo tempo, e é ponderado o grau de verdade com o qual a máquina decide. Nosso córtex visual também funciona assim. O mesmo vale para os sistemas de identificação facial, reconhecimento da fala e interpretação dos gestos, alguns aparelhos de diagnóstico médico e um número cada vez maior de aplicações financeiras.A lógica difusa pode se vangloriar de uma origem venerável. Já faz 2.400 anos que Parmênides de Elea sugeriu que uma proposição poderia ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Platão, seu grande admirador, levou em conta a proposição e chegou a admitir uma terceira região entre os pólos da verdade e da mentira. Mas essas idéias tiveram que esperar por Zadeh para se cristalizarem numa forma matemática precisa, e portanto útil aos engenheiros.A idéia de que o cérebro humano utiliza um mecanismo análogo à lógica difusa deve muito ao lingüista William Labov, fundador da sociolingüística moderna.Labov demonstrou em 1973 que as categorias "xícara" e "tigela" são difusas no nosso cérebro: confundem-se uma com a outra, e seu uso depende mais do contexto e da experiência do falante do que do tamanho real do recipiente. Por exemplo, muitos sujeitos da experiência consideraram o mesmo recipiente como sendo uma xícara (se diziam a eles que continha café) e uma tigela (quando pouco tempo depois sugeriam a eles que servia para comer). A decisão entre os dois nomes depende também de outros fatores: ter uma asa, ser de cristal, estar sobre um pires e exibir um diâmetro que aumenta desde a base até a boca tiram pontos da "tigela" e empurram o falante para "xícara". O resultado de Labov é muito semelhante à lógica difusa: no nosso cérebro, um objeto pode ser uma tigela com um grau de verdade de 0,7 e uma xícara com um grau de verdade de 0,3. E esses graus se ajustam continuamente em função do contexto da experiência do falante.A neurobiologia mais recente confirmou as idéias de Labov de uma forma inesperada, em uma série de experimentos que iluminaram o problema central da semântica - como atribuímos um significado às palavras? - e também um tema chave da filosofia da mente: o que são os conceitos, os símbolos mentais com os quais se tece o pensamento humano?A idéia convencional é de que os conceitos são entidades estáveis, que se formam e são manipulados nas altas instâncias do córtex cerebral (os lóbulos frontais, agigantados durante a evolução humana). O conceito "flor" seria um autêntico "símbolo" pelo mesmo motivo que a palavra flor o é: porque se tornou independente de seu significado e pode ser manejado sem que se tenha uma flor à frente.Mas os dados estão revelando que o símbolo e seu significado são, em grande medida, a mesma coisa para o nosso cérebro. Pensar em algo vermelho, ou até pensar de forma abstrata sobre a cor vermelho, ativa os mesmos circuitos cerebrais que ver a cor fisicamente.Uma pergunta comum nos testes psicológicos é se dois desenhos diferentes representam duas orientações do mesmo objeto. Resolvemos o problema "girando mentalmente" o objeto, o que é esclarecido por um fato eloqüente: nosso tempo de resposta é diretamente proporcional ao ângulo que distingue um desenho do outro.O laboratório de Herbert Bauer, em Viena, demonstrou no ano passado que a "rotação mental" é indissociável da atividade de uma parte do córtex motor, a mesma que usamos quando queremos mover um objeto de verdade. Trata-se, segundo Bauer, de "uma simulação interna da rotação real de um objeto".Quando uma pessoa lê o verbo "pular" não apenas os seus lóbulos frontais se ativam, mas também as áreas que recebem a informação dos sentidos e os motores que regem suas ações. Os conceitos que manejamos se parecem menos com as definições da lógica formal do que com as verdades da lógica difusa: relativas, provisórias e tecidas com as fibras do mundo real. Fonte: El País.

Penso em investir parte do meu tempo com inteligência artificial escrita em Lua.

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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

 

O mundo maravilhoso da palavra intraduzível


O mundo maravilhoso da palavra intraduzível
Termos que só existem em outros idiomas revelam que cada língua possui uma abordagem distinta para a mesma realidade, mas suas diferenças podem ser apenas aparentes

Que o amor é complicado, ninguém questiona. Mas o povo boro, da Índia, tem vocabulário aparentemente bem mais atento às nuances desse sentimento do que muitas línguas. Para eles, onsay significa "fingir amar"; ongubsy, "amar de verdade" e onsia, "amar pela última vez". Essa busca pelo específico também pode ser observada entre os albaneses, cuja fixação por bigodes (sim, bigodes) ganha vocabulário preciso e diversificado: madh (bigode espesso), holl (fino), rruar (raspado), glemb (com pontas afiadas) e por aí vai. São mais de dez tipos, além de 27 termos dedicados a sobrancelhas. Da mesma forma, há na língua japonesa toda uma variedade de sensações sinestésicas de difícil tradução.

É como se certos povos vissem e sentissem coisas e fenômenos a que outros não parecem atentos. No livro Tingo - O Irresistível Almanaque das Palavras que a Gente Não Tem (Conrad, 2007), o inglês Adam Jacot de Boinod compila termos e expressões de diversos idiomas, como rapanui, inuíte, alemão e japonês, cobrindo aspectos da experiência humana que os povos teriam em comum, mas a linguagem, nem tanto.

O autor defende que algumas palavras descrevem conceitos e sensações locais, e suas favoritas tendem a ressaltar um aspecto de uma cultura específica. Na variedade babélica de línguas, chama a atenção a capacidade de determinados vocábulos sintetizarem idéias complexas, peculiares.

É o caso de iktsuarpok, que em inuíte (idioma da nação indígena inuíte, da região de Québec, Canadá) significa "ir muitas vezes à porta de casa para ver se a pessoa vem vindo"; ou do termo holandês plimpplamppletteren, "fazer uma pedra chata ricochetear na superfície da água o maior número de vezes possível"; e até da palavra-título tingo, que em rapanui (idioma polinésio da Ilha de Páscoa, território chileno ao sul do Pacífico) é "pedir emprestadas uma a uma as coisas da casa de um amigo até não sobrar nada".

Desculpe-me mas de tanto emprestar, fiquei sem açúcar !
Intraduzibilidade
A rigor, situações como essas existem em muitas culturas, mas é a maneira como se cristalizaram em um único vocábulo que as tornaria tão especiais. A palavra alemã Scheissenbedauern dificilmente encontraria equivalente em nosso idioma, posto que significa "frustração de quando alguma coisa acaba não sendo tão ruim como se esperava". Em contrapartida, a palavra bakkushan, do japonês, encontraria equivalências nas gírias machistas "raimunda" e "camarão", já que quer dizer "uma jovem que parece bonita vista de trás, mas pode não ser quando vista de frente".

O fenômeno das palavras de difícil ou impossível tradução, para as quais o idioma não dispõe de equivalentes tão significativos ou econômicos, é motivo de constante espanto dos especialistas da linguagem, lembra Mário Eduardo Viaro, professor da USP e colunista de Língua.

- O tema da "intraduzibilidade", ou melhor, da não-correspondência palavra-por-palavra, já é antigo em lingüística. Estudiosos como Sapir, Whorf, Nida já ficaram perplexos perante palavras aparentemente intraduzíveis das línguas indígenas norte-americanas - explica Viaro.

Os últimos séculos do Ocidente, que ampliaram o contato entre culturas distintas, parecem ter estreitado as distâncias entre povos, o que não só aumentou as trocas entre economias e países, como estimulou a curiosidade em torno do outro por nós desconhecido. Mostraram para a ciência que as diferenças lingüísticas retratam a diversidade, e paralelos comuns: sentida diferente, a experiência humana é parecida em lugares os mais diversos.

Essa, por exemplo, é a opinião de Jean Cristtus Portela, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), de Araraquara, como se vê no quadro abaixo. Cada língua, afirma, tem "palavras de toque", "cristais raros", que concentram a aventura humana de uma cultura, mas não convém generalizar o que as separa, criando hierarquias entre idiomas.

- O "conteúdo" das palavras, por mais "estrangeiro" que seja, raramente nos é completamente desconhecido, desde que nos disponhamos a apreciar a experiência do outro (sua "forma de vida") com, ao menos, cumplicidade - escreve.

Certas palavras, mais do que outras, parecem concentrar grandes experiências de uma comunidade. Algumas, sem equivalentes numa unidade lexical de outras línguas, seriam fruto de seqüências comportamentais, ações e cenas recorrentes, que fazem a superfície "material" da língua assumir dada configuração. Se poligamia é prática comum dos inuítes, em que os homens trocam de esposas por dias, natural que tenham denominação concisa para ele (areodjarekput).

Pode não ser disparatado encarar a tradução cultural, a harmonia entre as línguas, da maneira como em geral se encara uma tradução de obra literária estrangeira, por exemplo. Tal como um livro ou filme gringo, as palavras dos idiomas pedem a consideração do contexto lingüístico no qual estão imersas, uma vez que a cultura dos povos manifesta-se principalmente por meio de sua língua.

Segundo Regina Helena Machado Aquino Corrêa, tradutóloga e coordenadora do curso de pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina, há termos que carregam uma forte carga cultural, e quanto mais intensa ela for, maiores serão as barreiras tradutórias.

- São as experiências sensoriais, ligadas ao cheiro, ao sabor, à emoção, a realidades além das lingüísticas, que estabelecem para o signo lingüístico uma relação mais complexa do que aquela entre significante e significado - afirma Regina.

Diante disso, um dos maiores desafios do tradutor de obras literárias, por exemplo, é encontrar palavras que reflitam o estranhamento de uma realidade alheia (homens, cores, plantas, odores e ritmos de uma cultura), como no caso da palavra "capoeira" na versão em inglês do livro Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, traduzido por Barbara Shelby Merello.

- Nós brasileiros, que conhecemos a capoeira, sabemos que há algo para além da palavra que nomeia essa luta e não pode ser transmitido por uma simples explicação. Seria impossível passar a imagem mnemônica de um signo cultural que acompanha o signo lingüístico, e só a nossa experiência cultural é capaz relacioná-la à nossa tradição de uso de mão-de-obra escrava - explica a tradutóloga.

Contextos
Embora alguns povos pareçam mais atentos a resumir certas idéias em uma ou poucas palavras, seria próprio de toda língua nomear fenômenos, situações e objetos de acordo com "prioridades" de sua cultura, o que pode tornar intraduzível o sentido de um termo sem a compreensão do contexto.

O entendimento do contexto é importante, por exemplo, até para entender a "intraduzibilidade" que ocorre num mesmo idioma. O lingüista russo A. Kondratov lembra em Sons e Sinais da Linguagem Universal (Editora Coordenada, 1972) que uma mesma língua pode "recortar" ou classificar o mundo de forma diferente em momentos distintos. Valendo-se das diferenças entre o alemão arcaico e o moderno, Kondratov destaca o vocábulo Wurm, que antigamente significava "verme", "serpente", "dragão" e "aranha".

Sabe-se, atualmente, que o alemão apresenta quatro palavras diferentes para designar esses animais. Coube ao tempo e à evolução do idioma cunhar nomes específicos para eles.

Adam Jacot de Boinod, autor da coletânea Tingo, faz o elogio dos contextos. Em entrevista por e-mail, diz acreditar que as palavras revelam a universalidade da experiência humana que estaria impressa sob a aparência de diversidade lingüística. Seu interesse por palavras estrangeiras surgiu quando trabalhava como pesquisador do QI [Quite Interesting], um programa de TV com perguntas e respostas apresentado pelo ator Stephen Fry e exibido pela BBC de Londres. Ansioso para encontrar palavras interessantes iniciadas por uma determinada letra, Boinod recorria a dicionários estrangeiros, em que se deparava com palavras enigmáticas e praticamente impronunciáveis.

- Boinod escreveu um "guia de viagens" lingüístico. Pelas palavras dos outros vemos outras realidades, outras paisagens, comportamentos, que talvez estejam aqui também, entre nós, invisíveis, porém. Invisíveis porque ainda não temos, não tecemos as palavras certas - diz Gabriel Perissé, tradutor, doutor em Filosofia da Educação e colunista de Língua.

Para Francisco Borba, lingüista e dicionarista (é dele o Dicionário Unesp do Português Contemporâneo), um livro como Tingo pode ter o mérito de chamar a atenção do público para aspectos das línguas, mas seria preciso avaliá-lo com reservas. A falta de bibliografia e informações precisas sobre o contexto de uso das palavras em suas línguas de origem, além da carência de etimologia dos termos escolhidos, podem decepcionar leitores iniciados em questões de linguagem.

Processos a explicar
Segundo Maria Helena de Moura Neves, professora da Unesp (Araraquara) e do Mackenzie (São Paulo), a obra traz palavras com processos de formação heterogêneos, o que é natural por se tratar de vários idiomas. Mas a falta de indicação sobre a natureza desses diferentes processos, que variam de língua a língua, de palavra a palavra, faz de Tingo mero livro de curiosidades, mais voltado ao entretenimento do que ao aprendizado lingüístico propriamente dito.

No alemão, que produz muitas palavras compostas, Maria Helena ressalta que, ao se juntarem dois radicais, o significado de um se projeta sobre o do outro, o que gera um terceiro significado que, por sua vez, não representa simplesmente a soma dos dois. Um bom exemplo desse processo de composição é a palavra drachenfutter, descrita no livro de Boinod como "presente que um marido culpado oferece à esposa para se redimir", cujo sentido literal é "ração (futter) de dragão (drachen)".

- É uma ironia que vivamos numa era em que a informação seja tão fácil de obter e tão difícil de ser checada. Há muito se acabou o zelo solitário dos lexicógrafos da era vitoriana, que me proviam com tanto material inédito, muitos ignorados até mesmo pelos nativos da língua - afirma Boinod.

As palavras, expressão de hábitos e raciocínios de povos em séculos de uso, deixam poucos rastros em que podemos nos fiar. Por isso, o paralelo mais surpreendente entre significados comuns nos idiomas talvez não seja, para quem se encanta com o fenômeno da linguagem, o das palavras que demarcam nossa diferença, mas o do quanto sua disparidade comunica cada semelhança.

O mito do intraduzível

A palavra drachenfutter, "presente que marido culpado dá a esposa para redimir-se" significa literalmente "ração" (futter) de "dragão" (drachen)

Cada língua tem palavras "sem tradução", mas aS experiência humana é comum a vários povos

Jean Cristtus Portela

Partidários do intraduzível, a idéia de que a barreira entre idiomas é intransponível, têm por deus a língua e por santos, as palavras, o conjunto estando orquestrado no céu das formas. Sensação e percepção, cognição e pensamento, constituintes sutis e imateriais da linguagem, não têm muito espaço nessa visão "concreta" (e parcial).

Cada língua tem "palavras de toque", cristais raros, que concentram a aventura humana de uma cultura. Para deleite dos fetichistas do léxico, muitas palavras "sem tradução" são uma única unidade lexical (ainda que formadas por justaposição de vocábulos), cuja explicação-tradução toma linhas de texto. Em si, isso não é surpreendente: cada cultura tem seqüências comportamentais recorrentes (ações, cenas, sentimentos), que "forçam" a superfície material da língua a ganhar corpo, contornos, vocalização, uma forma estável de denominação.

Se, na forma, há palavras de difícil tradução, no conteúdo não há experiência humana expressa na língua que não possa ser transmitida a outro humano. Se a forma pode nos ser estranha, pois vem de repertório de sensações (sons, cores, volumes) diferente do nosso, com coerções sociais e históricas distintas das que conhecemos, o conteúdo, por "estrangeiro" que seja, raramente nos é tão desconhecido, desde que nos disponhamos a apreciar a forma de vida do outro com cumplicidade.

Intraduzível mito
Em geral, o mito do intraduzível insinua um desejo de superação: o tradutor se debate com o "gênio da língua", que ganha proporção de montanhas, abismos, imagens de pequenez e vertigem. Segundo o mito, os inimigos do tradutor são a "densidade" (a opacidade), a "riqueza", a "raridade" (preciosidade) da língua a ser traduzida, que parecem sempre maiores do que a da língua para a qual se traduzirá. A "língua-alvo" ou "de chegada" é insuficiente, está em posição de deficiência, de falta.

Essa lógica do menos e mais, da potência e da impotência, não serve para pensar a diversidade de línguas e as diferenças que ela implica. Para quem a aprecia com olhar zeloso, toda língua é preciosa. Já o especialista, sem poder avaliar a "beleza" ou "racionalidade" de um idioma ("como é belo o francês", "só se pode filosofar em alemão"), contenta-se em inventariar os tipos lingüísticos.

Geralmente, no mito do intraduzível tudo tem seu valor assegurado pelo pitoresco: o "dialeto tribal", os "resquícios de uma língua primitiva", o "gênio da língua". Tudo é pitoresco e anedótico: "uma palavra para dizer tudo isso!", "quem não conhece essa expressão não entende essa cultura", "não leio traduções" etc. A idéia de intraduzibilidade nutre-se do senso comum e promove preconceitos.

No culto do intraduzível, há fascínio pela impossibilidade de dizer. Fascínio e medo: admiramos quem pode dizer o que não podemos, duvidamos de quem nos ensina a dizer o que não achávamos que podíamos.

Jean Cristtus Portela é semioticista e tradutor, doutor em linguística e lingua portuguesa pela Unesp Araraquara

Palavra e Origem Significado
Tingo (Rapanui) Pedir emprestadas, uma a uma, as coisas da casa de um amigo até não sobrar nada
Iktsuarpok (Inuíte) O ato de ir muitas vezes à porta de casa para ver se a pessoa vem vindo
Kyouikumama (Japonês) Mulher que força os filhos a estudar demais
Giomlaireachd (Gaélico escocês) O hábito de aparecer na casa dos outros na hora das refeições
Razbliuto (Russo) O afeto que ainda se sente por alguém que algum dia se amou
Ohrwurm (Alemão) Música que fica na cabeça ou que se torna popular com rapidez ("verme de ouvido")
Zakilpistola (Basco) Aquele que sofre de ejaculação precoce ("pinto pistola")
Menggerumut (Indonésio) Aproximar-se de alguém em silêncio à noite para transar
Sgriob (Gaélico escocês) Coceira no lábio superior pouco antes de tomar um gole de uísque
Pagezuar (Albanês) Morrer antes de desfrutar as alegrias do casamento ou de ver os filhos casados
Ciegayernos (Espanhol caribenho) Mulher que procura marido para a filha

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