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Bachelard, Rimbaud, Nietzsche, Lewis Carrol, e o penetra Baudelaire

Sábado, 1 de Fevereiro de 2003

 

Bachelard, Rimbaud, Nietzsche, Lewis Carrol, e o penetra Baudelaire

Bachelard, Rimbaud, Nietzsche, Lewis Carrol, o penetra Baudelaire e muitos outros,
todos sentados em volta da mesma távola, arrancando nacos de carne macia e
comendo com mingau. Bachelard está sentado com um pouco mais de distância, e
ri com serenidade.

_Certo. Posso ouvir seu riso. Achas que se dirige a ti?
_A mim, diretamente, não. Às Condições de um contexto patético.
_Uma colocação retórica.
_Claro que é, se não fosse, em que classificação retórica alternativa isto se
enquadraria?
_Moldas tua face com a mesma argila de Sócrates, embora exiba a perícia de uma
criança analfabeta. Derrubas as construções alheias enquanto tu próprio não tens
nada a oferecer que não seja as ruínas do que demoliu.

Por outro lado, há a denotação de que esta é a síntese de todo o desenvolvimento
intelectual da história do Homem. As positivações feitas de equívocos dogmatizados,
seguida de uma revisita corretora até que se apague com o tempo toda a verdade até
então construída. Em prol do recomeço do sistema (que Orobobo muito bem tecido!

Do tamanho de todas as bibliotecas do mundo: milhares de Alexandrias, sua perda
e retomada sistemáticas).

Os números zero e um, agora em mil novecentos e noventa e nove, são os códigos
que se escreve mais rápido. Temos de nos ocupar, formigas cerebrais. Nas imagens
de Bachelard, os universos diurno e noturno se desenvolveram paralelamente.

Binariamente.

O pensamento sempre oscilou entre essas duas possibilidades
paradigmáticas opostas e complementares: a de exteriorizar o mais exatamente
possível sua representação pessoal do universo, a imaginação simbólica, ou por de
lado sua percepção pessoal em função das convenções necessárias à comunicação,
à participação e à identidade do seu grupo em torno de uma representação coletiva
da realidade, a representação sígnica. O pensamento binário que emana do novo
homem, o homem ciborgue, horrendo híbrido do homem lobotomizado e as máquinas
do capitalismo. Que brilhante idéia! Dessa vez, não podemos quebrar as máquinas,
pois elas somos nós.

Não é Bachelard que desenvolve a idéia de que o instante poético é uma “relação
harmônica entre dois contrários”? Heis o caos do homem e a lógica da máquina.
Misturamos os dois e temos o homem ciborgue.

E é nesse cenário que a arte de Rimbaud se encontra perdida, num universo frio e
binário desse final de milênio. Anacronismo? Não, pois não acredito em um tempo.
Acredito, sim, que há um modismo não salutar que mistura o humano com a
máquina, e retira-lhe o que o torna verdadeiramente humano e artístico: o erro, a
imperfeição, o pútrido. O contrário disso é a perfeição plástica, destituida
necessariamente de mensagens, como são os grandes tele jornais nacionais.

O tempo do corpo é um; como poderíamos nos defrontar diante o tédio? Quem nos
explicaria a razão de estamos de forma constante e ritmada cercados em celas duras
de concreto, pretendendo experimentar o mundo através de uma tela de areia polida
que brilha? Se todos os corpos humanos fossem desfilar fora de suas casas, seu
corpo moldado pela inércia - que espetáculo! Um congestionamento irresistível.

Alisando com a leveza de uma amante esta visão preciosa, temos uma postulação,
que emerge do leite suave de tal rosa: vivemos para nos mantermos imóveis, entre os
dois momentos que necessariamente temos de espender cuidando das funções
fisiológicas e cumprindo o que nos toca para que sempre seja assim.

_Volta e meia acontecem coisas nessa vida tão fechada em sua pré programação. Os
dramas, as tragédias pessoais. Frentes a estes abismos vemos a dimensão oculta na
vida comum. Pois, se não há profundidade nos cânones, por que motivo ela está (é)
ali? Encrustrada em nós, consumindo carne demais, pervertendo a grande economia
universal. Denotando, e fazendo-nos gargalhar chorando como loucos! _É
indispensável que se resolva esse paradoxo.

_Tens medo?
_Não, pavor. Quero saber qual das mortes é menos amarga. E, se, afinal, me apraz o
assassino.
_O quê?
_O peso. É praticamente um fratricídio em primeiro grau.
_Estenda-se no assunto, por favor.
_Uma vez ouvi as considerações de um homem sobre a inexistência da obrigação:
sempre é possível assassinar-se!
_Com ressalvas. Pois bem. E se, a priori, somente as possibilidades em vida me
forem convenientes?

Cabe à consciência subjetiva a escolha de sentido para a própria existência. Até
então, o que foi feito limitou-se em recortar-se e cozendo retalhos de dogmas
institucionais. Estes não se confrontam, mas se locupletam evitando o silêncio.
Reflexivo, Franscis Bacon já alertava sobre a impossibilidade de transpor o discurso
científico para o terreno cotidiano, sob a pena da incapacidade comunicacional, e
por conseguinte, lógica.

O indivíduo natimorto viu-se ambulando pelas ruas, com todas as permissões que
pudesse articular, e obviamente não articulou. Olhou o seu rosto longamente, do
espelho d’água romana ao da parede do café francês, e pôde até contemplar alguns
pictogramas bem mais antigos. O insight cansado: não se pode ser cético todo o
tempo. A recusa da sitemática de chavões desce a mente humana ao caos primordial.
O conhecimento ao qual temos disposição foi uma ordem assentada por milênios e milhares. São precisos dois para a dialética e linguagem... Não se desvela, dessa forma, o embuste do sujeito?

Terminações em vidro é o que temos. Nervos em cujas pontas se refratam as cons-truções
exteriores. Por dentro, a transparência natural da matéria. Suporte neutro
de abstrações. Os cotos deslizam por sobre as superfícies e sentem as texturas me-morizadas
do ideal, antes das vilosidades comuns. Raramente poesia; um estalo.
Rachaduras incongruentes com os monumentos ao perfeito encaixe. Mas isto são
choques térmicos, chamados de revoluções, por falta de outra palavra menos triste.

Bachelard descobriu na aparente contradição entre o sígnico e o simbólico um vali-oso
método de interpretação dialógica: alternar o estudo científico dos signos com a
imaginação criativa, a meditação sobre o conteúdo simbólico da linguagem. Temos,
assim, duas faces da produção intelectual: a ‘diurna’ da exigência de objetividade do
pensamento lógico; e a ‘noturna’, onde a subjetividade mergulha no inconsciente.

Dessa forma, por um lado, o conhecimento científico é sempre a reforma de uma
ilusão, e, por outro, é a intuição e a imaginação criativa que são como alimentos que
renovam a atividade crítica do pensamento. Alguns cientistas atuais identificam
essas duas facetas da atividade mental como um produto direto do funcionamento
dos dois hemisférios cerebrais, onde o lado esquerdo desenvolve o simbólico-afetivo
e o direito, o lógico-racional.

Imensidão, jardins selvagens “à inglesa”, contrastes bruscos, aridez da seca e das
queimadas, exuberância de brotos e flores após as queimadas, colinas sinuosas,
águas cristalinas, veredas, a verticalidade dos buritizais em contraposição aos vas-tos
horizontes, pedras lisas erodidas pelos ventos e pelas águas, aspereza de folhas
grossas como couro, crepúsculos vermelhos como a poeira adstringente que tudo
cobre, monotonia de uma paisagem que se estende tanto que quase perde seu en-canto.

O olhar aventureiro e admirado do estrangeiro projeta seus referenciais cul-turais
sobre estes ermos exóticos, incorporados ao seu repertório, leva-nos aos rudi-mentos
de uma visualidade do sertão, lugar de contrastes variados paradoxalmente
repetitivos. Estamos, então, em condições de ver como, entre esses jardins selva-gens
e casuais, podem-se encontrar as estruturas de um olhar, de uma visualidade
do deserto.

Segundo Bachelard, “a cabana do eremita é uma glória da pobreza. De despojamento
em despojamento ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio”. Esse jorro de metáforas nos leva às considerações de que, para ele, a “consciência da imensidade faz do escritor romântico um herói da contemplação. Por sua "mise-en-scène", ele faz trabalhar uma imaginação do excesso. Esta imaginação vai entrar, por este excesso, em comunicação com a terra imensa. “Se substituíssemos, nessa citação, o termo de escritor pelo de artista plástico, ou simplesmente pelo de espectador, teríamos, então, diante de nós, alguém vivenciando sensações de “onirismo panorâmico” que correspondem à “contemplação da paisagem cuja pro-fundidade e extensão parecem chamar pelos devaneios do ilimitado”.

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